Parte III - A entrega do envelope
Não sei bem o porquê. Por algum tempo, ficamos nos fitando calados, inertes, como duas estátuas de mármore; apesar de que muitas parecem estar vivas, mais do que parecíamos. Talvez ele estivesse esperando que eu começasse o diálogo, assim como eu esperava que o fizesse; ou só distraiu-se com alguma coisa, de modo a não perceber o quão era estranho duas pessoas, cara a cara, silenciosas, com o pensamento ao longe, em frente à soleira da porta. Bem, de qualquer modo, isso não tem mais importância.
Sem que eu percebesse, ele saiu do estado de dormência e começou a procurar pacientemente o objeto, que logo fui saber que era um envelope, creme, meio aberto, aparentemente novo, de tamanho convencional, sem nada escrito externamente. Curiosamente, pude notar uma mudança significativa no semblante daquele homem quando entregou-o a mim. Pareceu-me que tinha ganhado vida, ou algo parecido. O seu olhar frio tornou-se mais acolhedor e morno, e sua pele meio pálida e opaca, mais natural e humana. Isso foi o bastante para instigar ainda mais a curiosidade pelo homem e pelo envelope.
Peguei o papel apreensivo, mas com certa cautela, pois não queria preocupá-lo. Por dentro, estava buliçoso e impaciente, tremendo de ansiedade; já por fora, apresentei-me com neutralidade e boa educação. Abri-o com muito cuidado, pois tive o receio de que rasgasse - por dois motivos: não queria que seu dono se chateasse e estava tão limpo, bem dobrado e novo, que tive pena de estragá-lo com meu descuido. Só para constar, ele realmente estava meio aberto, mas de um modo a não permitir que o que ali havia caísse para fora. Assim, retirei uma folha branca, uma pequena carta, e li-a atentamente por duas vezes em silêncio.
Agora entendo uma parte do mistério, ou melhor, do misterioso senhor. É impressionante como uns simples pedaços de papel podem ser tão explicativos e comunicativos. Eu, que estou acostumado a livros tão volumosos, nunca esperaria encontrar em tão poucas palavras, numa pequena carta, num simples envelope, algo tão significativo e esclarecedor. Enquanto lia, o homem fitava-me pacientemente, como se tivesse todo o tempo do mundo para esperar. Talvez ele preferisse ter esperado numa cadeira, com chá e biscoitos, mas nem pensara nisso, devido a ansiedade.
Fiquei muito apegado ao envelope, por isso, pensei em pedi-lo ao homem, mas resolvi me conter e entregá-lo - se aquilo era especial a mim, também poderia ser a ele, e até bem mais. Estendi-o ao senhor que o recusou, fazendo sinais para que eu ficasse. Era como se tivesse lido a minha mente, ou talvez o meu desejo e apego fosse aparente demais. Mas isso não importa. Fiquei muito feliz e agradeci-o verdadeiramente. Não falei "muito obrigado" da boca para fora, como muitos fazem, do mesmo modo que dizem "bom dia" e "tudo bem?" só por costume. Eu o agradeci realmente e acredito que ele percebeu, o que deixou-o muito feliz.
Logo, pedi que entrasse e ficasse confortável. A porta foi fechada, ele tirou a casaca e o chapéu, e sentou-se no sofá da sala, de modo bem cordial e confortável. Ofereci-lhe o chá com biscoitos, que foi aceito e então fui à cozinha prepará-lo. Aqui, estou agora, à espera da água ferver para servir visitante tão ilustre, misterioso e, aliás, silente.
Sem que eu percebesse, ele saiu do estado de dormência e começou a procurar pacientemente o objeto, que logo fui saber que era um envelope, creme, meio aberto, aparentemente novo, de tamanho convencional, sem nada escrito externamente. Curiosamente, pude notar uma mudança significativa no semblante daquele homem quando entregou-o a mim. Pareceu-me que tinha ganhado vida, ou algo parecido. O seu olhar frio tornou-se mais acolhedor e morno, e sua pele meio pálida e opaca, mais natural e humana. Isso foi o bastante para instigar ainda mais a curiosidade pelo homem e pelo envelope.
Peguei o papel apreensivo, mas com certa cautela, pois não queria preocupá-lo. Por dentro, estava buliçoso e impaciente, tremendo de ansiedade; já por fora, apresentei-me com neutralidade e boa educação. Abri-o com muito cuidado, pois tive o receio de que rasgasse - por dois motivos: não queria que seu dono se chateasse e estava tão limpo, bem dobrado e novo, que tive pena de estragá-lo com meu descuido. Só para constar, ele realmente estava meio aberto, mas de um modo a não permitir que o que ali havia caísse para fora. Assim, retirei uma folha branca, uma pequena carta, e li-a atentamente por duas vezes em silêncio.
Agora entendo uma parte do mistério, ou melhor, do misterioso senhor. É impressionante como uns simples pedaços de papel podem ser tão explicativos e comunicativos. Eu, que estou acostumado a livros tão volumosos, nunca esperaria encontrar em tão poucas palavras, numa pequena carta, num simples envelope, algo tão significativo e esclarecedor. Enquanto lia, o homem fitava-me pacientemente, como se tivesse todo o tempo do mundo para esperar. Talvez ele preferisse ter esperado numa cadeira, com chá e biscoitos, mas nem pensara nisso, devido a ansiedade.
Fiquei muito apegado ao envelope, por isso, pensei em pedi-lo ao homem, mas resolvi me conter e entregá-lo - se aquilo era especial a mim, também poderia ser a ele, e até bem mais. Estendi-o ao senhor que o recusou, fazendo sinais para que eu ficasse. Era como se tivesse lido a minha mente, ou talvez o meu desejo e apego fosse aparente demais. Mas isso não importa. Fiquei muito feliz e agradeci-o verdadeiramente. Não falei "muito obrigado" da boca para fora, como muitos fazem, do mesmo modo que dizem "bom dia" e "tudo bem?" só por costume. Eu o agradeci realmente e acredito que ele percebeu, o que deixou-o muito feliz.
Logo, pedi que entrasse e ficasse confortável. A porta foi fechada, ele tirou a casaca e o chapéu, e sentou-se no sofá da sala, de modo bem cordial e confortável. Ofereci-lhe o chá com biscoitos, que foi aceito e então fui à cozinha prepará-lo. Aqui, estou agora, à espera da água ferver para servir visitante tão ilustre, misterioso e, aliás, silente.
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