terça-feira, 27 de agosto de 2013

O Visitante Silente - III

Parte III - A entrega do envelope

      Não sei bem o porquê. Por algum tempo, ficamos nos fitando calados, inertes, como duas estátuas de mármore; apesar de que muitas parecem estar vivas, mais do que parecíamos. Talvez ele estivesse esperando que eu começasse o diálogo, assim como eu esperava que o fizesse; ou só distraiu-se com alguma coisa, de modo a não perceber o quão era estranho duas pessoas, cara a cara, silenciosas, com o pensamento ao longe, em frente à soleira da porta. Bem, de qualquer modo, isso não tem mais importância. 
      Sem que eu percebesse, ele saiu do estado de dormência e começou a procurar pacientemente o objeto, que logo fui saber que era um envelope, creme, meio aberto, aparentemente novo, de tamanho convencional, sem nada escrito externamente. Curiosamente, pude notar uma mudança significativa no semblante daquele homem quando entregou-o a mim. Pareceu-me que tinha ganhado vida, ou algo parecido. O seu olhar frio tornou-se mais acolhedor e morno, e sua pele meio pálida e opaca, mais natural e humana. Isso foi o bastante para instigar ainda mais a curiosidade pelo homem e pelo envelope.
      Peguei o papel apreensivo, mas com certa cautela, pois não queria preocupá-lo. Por dentro, estava buliçoso e impaciente, tremendo de ansiedade; já por fora, apresentei-me com neutralidade e boa educação. Abri-o com muito cuidado, pois tive o receio de que rasgasse - por dois motivos: não queria que seu dono se chateasse e estava tão limpo, bem dobrado e novo, que tive pena de estragá-lo com meu descuido. Só para constar, ele realmente estava meio aberto, mas de um modo a não permitir que o que ali havia caísse para fora. Assim, retirei uma folha branca, uma pequena carta, e li-a atentamente por duas vezes em silêncio.

      Agora entendo uma parte do mistério, ou melhor, do misterioso senhor. É impressionante como uns simples pedaços de papel podem ser tão explicativos e comunicativos. Eu, que estou acostumado a livros tão volumosos, nunca esperaria encontrar em tão poucas palavras, numa pequena carta, num simples envelope, algo tão significativo e esclarecedor. Enquanto lia, o homem fitava-me pacientemente, como se tivesse todo o tempo do mundo para esperar. Talvez ele preferisse ter esperado numa cadeira, com chá e biscoitos, mas nem pensara nisso, devido a ansiedade.
      Fiquei muito apegado ao envelope, por isso, pensei em pedi-lo ao homem, mas resolvi me conter e entregá-lo - se aquilo era especial a mim, também poderia ser a ele, e até bem mais. Estendi-o ao senhor que o recusou, fazendo sinais para que eu ficasse. Era como se tivesse lido a minha mente, ou talvez o meu desejo e apego fosse aparente demais. Mas isso não importa. Fiquei muito feliz e agradeci-o verdadeiramente. Não falei "muito obrigado" da boca para fora, como muitos fazem, do mesmo modo que dizem "bom dia" e "tudo bem?" só por costume. Eu o agradeci realmente e acredito que ele percebeu, o que deixou-o muito feliz.
      Logo, pedi que entrasse e ficasse confortável. A porta foi fechada, ele tirou a casaca e o chapéu, e sentou-se no sofá da sala, de modo bem cordial e confortável. Ofereci-lhe o chá com biscoitos, que foi aceito e então fui à cozinha prepará-lo. Aqui, estou agora, à espera da água ferver para servir visitante tão ilustre, misterioso e, aliás, silente.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O Visitante Silente - II

Parte II - Um estranho à minha porta

      Quando se está em um profundo estado de transe, o mundo ao redor parece deixar de existir, em um certo intervalo de tempo. Com certeza, estive num outro lugar, fora da Terra, fora deste Universo, há alguns segundos, mas já voltei, e para o mesmo local de sempre. É meio triste saber que estive quase todos os dias, nesses últimos anos, nesse mesmo lugar, como um canário na gaiola; embora eu não esteja reclamando disso, pois vivo bem aqui e gosto desse meu lar. Eu só acho que a vida poderia ser mais interessante como nos livros que li recentemente. Os títulos deles não importam, nem os gêneros; ou pelo menos não por agora. Enfim, preciso abrir logo a porta, antes que seja tarde demais. Num minuto, estará destrancada.
      Quanto às chaves, elas se encontravam penduradas num porta chaves, logicamente, logo ao lado da porta. Ele é um tanto bonito e modesto, mas ao mesmo tempo é meio solitário e pouco útil - apesar de apresentar vários ganchos, somente um deles é utilizado para guardar ambas as chaves. Mesmo assim, gosto dele - consegue decorar muito bem a parede da sala. Oposto a isso, as chaves são velhas e um tanto escurecidas com o tempo e a sujeira, e por isso não convém comentar muito sobre como são, mas como já foram - brilhantes e encantadoras. Quando eu tiver tempo, dar-lhes-ei um jeito, limpando-as ou trocando-as. Elas pertenceram a muitas pessoas queridas, nos momentos nos quais esta sala fora uma de suas posses. Mas não cabe a mim continuar usando-as se perderem sua importância e função. Creio que logo se aposentarão, numa caixa de lembranças...
      Viradas as chaves nos trincos, enfim, abri a porta. Era um senhor, muito bem vestido, que esperara pacientemente por mim. Nunca o vi na vida, nem parecia-me familiar, mas não aparentava ser qualquer tipo de ameaça. É claro que nem todos os assassinos se parecem com assassinos, e nem todas as pessoas boas podem parecer boas, mas ele era diferente, muito diferente. Não sei explicar exatamente qual é a sensação que ele transmite, contudo é algo pacífico e inofensivo. À propósito, esse senhor não é um homem velho, muito menos jovem - talvez tenha entre 30 e 40 anos, ou pelo menos, é sua idade aparente. Geralmente, recebo jovens estudantes ou velhos jornalistas, mas não acho que ele seja algo do gênero.
      Como costumo receber muitas visitas, tive contato com diversas culturas, opiniões e ideias, e isso me ajuda bastante no que faço. Não sei exatamente porque tanta gente vem aqui, apesar de que ninguém aparece há mais de um mês; creio que seja comum em minha profissão. Porém, este estranho homem, ou melhor, desconhecido senhor, é o tipo de visitante que eu não esperava encontrar, é um tanto pouco falante e levemente tímido. Não faço ideia de quem seja, por isso estou interessadíssimo em conhecê-lo.
      E, assim, ficamos nos olhando por algum tempo, com a mente indo longe e voltando, constantemente, num profundo silêncio, até que ele começou a procurar algo no bolso do casaco. Era um envelope.

sábado, 17 de setembro de 2011

Teorema de Pitágoras

  O Teorema de Pitágoras (usado na relação entre a hipotenusa e os catetos de um triângulo retângulo) pode ser simplesmente escrito como:

(hip)² = (co)² + (ca)²  , 



  Ou é possível escrevê-lo da seguinte forma :


(hip)² = (co)² + (co)² - 2.(co).(ca).cos 90º  , 

seguindo a Lei dos Cossenos: 

a² = b² + c² - 2.b.c.cos Â

(considerando a, c como lados de um triângulo qualquer e cos  como o cosseno do ângulo oposto ao lado a.)



  Ou também é possível desenvolvê-la, escrevendo-a como:

(hip)² = (co + ca)² - 2.(co).(ca)  ,

a fim de utilizar a área e o perímetro de um quadrado ou um retângulo, para se chegar ao valor de sua diagonal (hip de um triângulo retângulo), já que a soma dos catetos (co + ca) vale a metade do perímetro e a multiplicação entre eles (co).(ca) vale a metade da área, de um quadrado ou de um retângulo.



* Obs: considerando, nas fórmulas acima, hip como a hipotenusa, co como cateto oposto, ca como cateto adjacente, cos como cosseno e cos 90º como valendo 0.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Visitante Silente - I

Parte I - Um som espalhou-se pela sala

      Era óbvio demais. Não é o tipo de coisa que se espera em certas situações. Estava deprimido, indisposto, não por doença ou depressão, mas simplesmente pelo fato de que senti um vazio dentro de meu profundo interior. É uma sensação de descaso com o que tenho e com o que penso ter. Não é o tipo de sensação que agrada as pessoas, mas, um dia ou outro, todos sentimos, todos mesmo, não é algo que só pobres ou só ricos sentem; provavelmente, é o que une a população mundial, é o que nos faz sentir que somos seres racionais com sentimentos, sentimentos profundos, alguns prazerosos, outros obscuros...
      Estava eu em minha meditação, deitado no sofá madrepérola, olhando para minha mente com meu olhos relativamente abertos, quando um som de tom agudo me fez despertar quase que totalmente de meu transe. Era um som peculiar que me despertou uma sensação de preenchimento do vazio que sentira há algumas centenas de minutos.Um timbre agudo soou de algum lugar próximo, e extremamente distante, do lugar aonde naquele momento estava. Era um som conhecido, pensei que fosse uma parte de alguma melodia, mas voltei a mim e lembrei que se tratava de um sino, o meu doce sino.
      Realmente, só lembrei do sino porque em minha mente floresceu a imagem de meu velho sino, que antes parecia apenas um objeto de metal que só servia para chamar o outro ou para ser tocado pelas crianças na época do Natal. O som repetiu-se, mas agora veio com maior intensidade, com uma sonoridade perfeita, que me fez sentir a alegria de uma criança quando escuta o leve som agudo. Em minha mente, a imagem de anjos, pequenos e jovens tocando e carregando o pequeno instrumento metálico de tom si.
      De repente, o som desabrochou-se em notas desarmônicas com tons finos e leves intercalados com tons extremamente finos e esganiçados, que me fizeram voltar ao mundo real com a velocidade da luz no vácuo. Então, descobri de onde o som vinha. Fiquei um pouco surpreso em saber, pois somente uma pessoa esquecida de modo extremo, não se lembraria do som de sua própria campainha; senti-me um tolo. E antes que a pessoa que a tocava o fizesse mais uma vez ou fosse embora, gritei-lhe para ter paciência, que já estava destrancando a porta.